Na manhã de 24 de fevereiro de 2025, as ruas de Belo Horizonte ficaram silenciosas. Escolas fechadas, bibliotecas vazias, merendeiras paradas — tudo por causa de uma exigeência simples, mas crucial: aumento salarial real. Professores e servidores municipais da rede pública de educação, organizados pelo Sind-REDE/BH, entraram em greve exigindo um reajuste equivalente à inflação oficial (4,8%) mais 10% de aumento real, além da reposição dos vale-alimentação. O movimento, que se espalhou por outros estados, revelou uma desconexão crescente entre o governo e quem mantém a educação pública funcionando — e não é apenas sobre dinheiro. É sobre dignidade.
Um acerto que não resolveu nada
Enquanto Belo Horizonte mantinha a pressão, em Florianópolis, o SINTRASEM anunciou, em 25 de fevereiro, um acordo com a prefeitura. Só que não era o que os trabalhadores esperavam. O acordo não garantiu reajuste salarial, não restituiu vale-refeição, não corrigiu a desvalorização dos últimos anos. Só adiou para abril a votação da reforma da previdência municipal — algo que, na prática, era uma ameaça já conhecida. A liderança do sindicato suspendeu a greve. Os trabalhadores ficaram com a sensação de que foram trocados por um adiamento."A suspensão da greve não significa o fim da luta", declarou o SINTRASEM em nota oficial, deixando claro que a categoria pode retomar as paralisações após uma assembleia marcada para 10 de março. Não foi um fim. Foi uma pausa. E os trabalhadores não esqueceram que, em fevereiro, a prefeitura de Florianópolis recusou-se a negociar qualquer aumento real, mesmo com a inflação acima de 5% e salários que perdem poder de compra desde 2022.
Na capital do RN, a greve não parou
Enquanto Florianópolis fechava o capítulo com um acordo fraco, em Rio Grande do Norte, a greve dos professores estaduais estava apenas começando. Em 25 de fevereiro, os docentes da rede pública estadual entraram em greve por um motivo simples: o governo de Fátima Bezerra (PT) queria pagar o reajuste nacional de 6,27% — aprovado em janeiro — em parcelas até dezembro, sem retroativos. Ou seja: os professores que trabalharam em janeiro e fevereiro não receberam o que lhes era de direito. Nenhum outro estado brasileiro fez isso. Nenhum."Não aceitamos ser tratados como funcionários de segunda classe", disse Cláudia Mendes, professora de matemática em Natal, em entrevista ao jornal Correio do Estado. "Se o governo federal reconheceu o reajuste, por que não aplicar na hora?". A greve, que em março já durava mais de três semanas, paralisou mais de 1.200 escolas e afetou diretamente 480 mil alunos. O governo alegou "restrições orçamentárias", mas os sindicatos apontaram que o estado gastou R$ 380 milhões em campanhas eleitorais no ano anterior.
A desconexão que minou a unidade
Um dos momentos mais tristes da greve em Belo Horizonte ocorreu antes mesmo da paralisação. Em 18 de fevereiro, representantes dos trabalhadores permanentes do Sind-REDE/BH decidiram não aderir à greve conjunta com os terceirizados, alegando que isso "desviaria o foco" da luta deles. O resultado? Os terceirizados, que ganham até 60% menos e não têm direitos básicos como plano de saúde ou estabilidade, ficaram sozinhos. A decisão foi criticada por sindicalistas de esquerda, como o CSP-Conlutas, que acusou a liderança de "fragmentar a classe trabalhadora".Essa divisão não é rara. Em vários municípios, servidores efetivos são incentivados a ver os terceirizados como concorrentes, e não como aliados. Mas a história mostra que quando um grupo é atacado, todos são afetados. Em 2023, em São Paulo, uma greve unificada de efetivos e terceirizados conseguiu avanços inéditos. Em 2025, em BH, a divisão enfraqueceu todos.
Novo capítulo: ataque à liberdade sindical
Não bastasse a negociação fraca e a greve em curso, em 13 de novembro de 2025, a prefeitura de Florianópolis deu um passo inesperado: ordenou que diretores de escolas removessem cartazes, faixas e materiais do SINTRASEM de todos os prédios públicos. O argumento? "Não há espaço para propaganda sindical em ambiente escolar". Mas os cartazes não eram propaganda. Eram informações sobre direitos, datas de assembleias e alertas sobre cortes na educação."Isso é censura disfarçada", afirmou Carlos Eduardo, vice-presidente do SINTRASEM. "Se a escola é espaço de formação cidadã, por que proibir a informação sobre direitos trabalhistas?". A decisão gerou protestos de entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil e a Unesco, que lembraram que a liberdade sindical é garantida pela Constituição e por tratados internacionais ratificados pelo Brasil.
Por outro lado, em 6 de novembro, os trabalhadores da Comcap (companhia de limpeza urbana de Florianópolis) aprovaram por ampla maioria um acordo bienal que garantiu aumento de 7,5%, reajuste de vale-transporte e a manutenção de benefícios. A diferença? Eles não aceitaram acordos vazios. Fizeram greve, resistiram, e venceram.
O que vem a seguir?
A greve em Rio Grande do Norte ainda não terminou. A prefeitura de Belo Horizonte não retomou negociações desde março. E em Florianópolis, a ameaça de reforma da previdência ainda paira sobre os servidores. O que todos esperam agora é que o movimento não se esvazie. Que os professores, merendeiras, zeladores e auxiliares não se cansem. Porque, como diz um cartaz ainda pendurado em uma escola em Natal: "Educação pública não se negocia. Se defende."Frequently Asked Questions
Por que o acerto em Florianópolis foi considerado fraco pelos trabalhadores?
O acordo assinado em 25 de fevereiro de 2025 apenas adiou para abril a votação da reforma da previdência, sem garantir aumento salarial, reposição de vale-refeição ou correção da inflação. Os trabalhadores reivindicavam 4,8% de reajuste pela inflação mais 10% real, e a prefeitura não ofereceu nada além de um adiamento. Por isso, muitos consideraram o acordo uma ilusão.
Como a greve no Rio Grande do Norte difere das outras?
Enquanto outras greves exigiam aumento real, no RN a luta é por cumprimento da lei: o governo estadual se recusou a pagar o reajuste nacional de 6,27% de forma integral e retroativa, mesmo após o Ministério da Educação ter fixado o piso salarial. A greve, que dura desde fevereiro, é a mais longa do país em 2025 e afeta 480 mil alunos.
Por que a decisão do Sind-REDE/BH de não apoiar os terceirizados foi criticada?
Ao recusar a greve conjunta em fevereiro, o sindicato dividiu a classe trabalhadora, enfraquecendo a pressão coletiva. Terceirizados ganham até 60% menos e não têm direitos básicos. Sindicalistas da CSP-Conlutas e PSOL apontaram que essa divisão beneficia o poder público, que usa a terceirização para reduzir custos e evitar negociações.
O que significa o ataque da prefeitura de Florianópolis aos cartazes do SINTRASEM?
Remover materiais sindicais das escolas configura censura à liberdade de expressão e associação, garantidas pela Constituição. Os cartazes não eram propaganda política, mas informações sobre direitos, assembleias e lutas por salários. A medida foi condenada pela OAB e pela Unesco, que lembram que escolas devem ser espaços de formação cidadã, não de silenciamento.
Por que os trabalhadores da Comcap conseguiram um bom acordo, mas os da educação não?
A Comcap manteve mobilização contínua, com assembleias frequentes e resistência a propostas vazias. Já o SINTRASEM aceitou um acordo sem conquistas reais por pressão política. A diferença está na estratégia: enquanto a Comcap unificou a luta e não cedeu, o sindicato da educação negociou sem pressão popular suficiente, e perdeu o poder de barganha.
Qual é o próximo passo dos educadores?
Em Belo Horizonte, a assembleia marcada para 10 de março de 2025 pode autorizar a retomada da greve. No RN, a mobilização segue com atos em todas as regiões. Em Florianópolis, os servidores planejam uma grande manifestação em abril, antes da votação da previdência. A unidade entre efetivos e terceirizados volta a ser discutida como única forma de vencer.
Comentários
Luana Karen novembro 19, 2025
Essa greve não é só sobre salário, é sobre quem a gente valoriza. Quando uma merendeira não consegue comprar comida pra sua própria família, o sistema já perdeu a alma. Educação pública é o único lugar onde a desigualdade ainda pode ser combatida com lápis e caderno. Não podemos deixar isso virar um privilégio.
Luiz Felipe Alves novembro 20, 2025
Essa história toda é um exemplo clássico de como o capitalismo lateja no âmago da administração pública. A terceirização não é um problema operacional - é uma estratégia de deslegitimação da classe trabalhadora. Eles dividem pra conquistar. E aí, quando o sindicato se recusa a unir os terceirizados, é porque já foi cooptado pelo discurso da eficiência. O que é eficiência se a escola vira um shopping de desigualdade?
Ana Carolina Campos Teixeira novembro 21, 2025
É lamentável como a classe trabalhadora se desfaz diante de mínimas concessões. A greve em Florianópolis foi um fracasso estratégico. O sindicato deveria ter mantido a pressão até o último centavo. Não há justificativa ética para suspender uma mobilização tão legítima por um adiamento burocrático. A educação não é um projeto de gestão pública, é um direito humano.
Stephane Paula Sousa novembro 22, 2025
o que me deixa triste é que a gente sempre espera que o governo faça a coisa certa mas ele nunca faz e a gente fica esperando como se fosse um presente de natal e nao um direito basico
Edilaine Diniz novembro 23, 2025
Eu trabalho numa escola pública e vi o impacto disso na prática. As merendeiras estão trocando o almoço dos alunos por pão com margarina porque não conseguem pagar a conta. Ninguém tá pedindo luxo, só o mínimo pra viver. Se a gente não se unir, vai continuar sendo esmagado por números e planilhas que nem conhecem a realidade da sala de aula.
Thiago Silva novembro 25, 2025
Essa greve tá virando um reality show. Toda semana tem um novo discurso, uma nova assembleia, um novo cartaz. Mas onde está o resultado? Enquanto isso, os alunos perdem ano letivo, os pais perdem dia de trabalho, e os políticos continuam na praia. O movimento precisa de estratégia, não de emoção. Eles querem atenção, não mudança. E aí a gente cai no jogo deles.
Gabriel Matelo novembro 26, 2025
Os exemplos de Florianópolis e Rio Grande do Norte revelam uma lógica institucional que se repete no Brasil: a negociação é usada como instrumento de desgaste, não de solução. O governo sabe que a mobilização é sustentável por um tempo - e conta com o esgotamento emocional dos trabalhadores. A única forma de romper esse ciclo é com unidade absoluta entre efetivos e terceirizados, como ocorreu em São Paulo em 2023. A divisão é a arma mais eficaz do poder contra a classe trabalhadora.
Luana da Silva novembro 26, 2025
Comcap fez greve e ganhou. SINTRASEM negociou e perdeu. Ponto. Não tem mais o que discutir. A diferença tá na disciplina da mobilização. Nada de discurso. Só ação.
Pedro Vinicius novembro 28, 2025
Se o governo federal reconheceu o reajuste por que o estadual não aplica na hora É só porque o dinheiro tá no bolso deles e não no da gente e aí vem a desculpa de orçamento mas o que eles fizeram com os 380 milhões de campanha É isso que tá errado não o salário
Evandro Argenton novembro 29, 2025
Essa história de cartaz na escola é ridícula. Se a escola é pra formar cidadão, então por que esconder a verdade? O cartaz não tá pedindo revolução, tá dizendo que o povo tem direito a comer e a ser pago. Isso é censura disfarçada de burocracia. Quem tá com medo disso é o prefeito, não os alunos.
Adylson Monteiro novembro 29, 2025
Esses professores são uns inúteis! Tudo que eles querem é salário, mas ninguém vê o que eles fazem! O aluno chega em casa sem saber ler, e eles reclamam de vale-refeição? Eles são os mesmos que ensinam que tudo é injusto, mas não ensinam matemática! E agora querem parar o país por causa de 10%? Onde está a responsabilidade? Onde está o exemplo? Eles são os piores profissionais da educação, e ainda querem ser heróis!
Aline de Andrade novembro 29, 2025
Quem tá na frente da sala sabe que o problema não é só o salário. É o descaso. É o teto salarial que congela há 12 anos. É o fato de que um zelador ganha menos que um entregador de app. E ainda chamam isso de serviço público. Se fosse verdade, o governo não precisaria esconder os cartazes. Ele teria orgulho de mostrar que investe em quem ensina.
Amanda Sousa novembro 30, 2025
Quando eu era criança, minha professora me ensinou que a educação é a chave. Hoje, ela está sem almoço, sem aumento, e ainda ensina com o coração. Ninguém tá pedindo fortuna. Só dignidade. E se a gente não luta por isso, quem vai lutar? Acho que a greve tá certa. E se os sindicatos não unem, a gente tem que unir. Porque se não, o sistema vence.
Fabiano Oliveira dezembro 1, 2025
Na verdade, a greve em Belo Horizonte foi minada antes mesmo de começar. A decisão de excluir os terceirizados não foi um erro tático - foi uma escolha ideológica. A elite sindical quer manter a hierarquia: efetivos como "trabalhadores de verdade" e terceirizados como "excedentes". Isso não é luta de classe. É luta de castas. E isso, mais do que qualquer decreto, é o que destrói o movimento popular.